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quarta-feira, 25 de junho de 2008

"Genocídio Silencioso"

ARTIGO
- 24 de junho de 2008
O genocídio verde cana e dólar

Quando abri um dos maiores jornais do Mato Grosso do Sul parei o olhar na manchete “Genocídio Silencioso”. Pensei, finalmente a vergonhosa situação a que estão submetidos os povos indígenas no Estado começa a ser reconhecida. O editorial começava falando da brutalidade com que três adolescentes Kaiowá Guarani assassinaram outra adolescente. Passei a ler com mais pressa na expectativa de encontrar na próxima linha o reconhecimento da causa dessa e de dezenas de outras mortes anunciadas. Qual não foi a minha decepção ao terminar a leitura e não encontrar nenhuma referência à questão da terra.
Faride, importante liderança Kaiowá Guarani, que alguns meses retornou com seu grupo para terra tradicional de seu povo à beiro do Rio Brilhante, comentou entristecido: Acabamos de enterrar o Josemar, de 15 anos que se suicidou. “Ainda sentei com ele nesses dias. Conversamos bastante. Ele estava muito triste porque cortaram a bolsa escola. Você sabe, nós estamos aqui presos nessa retomada. Ninguém pode sair nem para estudar. Então acho que esse foi o motivo porque ele se matou”. A matéria da imprensa também fazia alusão a uma possível reintegração de posse e expulsão dos índios do local, como uma das causas de mais essa morte, contabilizada entre as mais de quarenta entre assassinatos e suicídios ocorridos entre os Kaiowá Guarani nestes primeiros meses deste ano.
O presidente do sindicato da alimentação de Sidrolândia liga ao escritório do Cimi para comunicar que mais de 40 pessoas continuam internadas em hospital desta cidade, trazidos da Usina Vitória, suspeitos de contaminação por alimentação. Desses 80% são indígenas. Informou ainda que foram impedidos de ir até os alojamentos para se certificar da situação, pois os indígenas teriam informado que existiam muitos outros doentes e que a situação era crítica.
Na Assembléia Legislativa de Campo Grande será votado essa semana uma lei que revoga a que estabelecia a distância de 25 km entre uma usina e outra. A justificativa é que para viabilizar a construção do alcooduto deste Estado até o litoral no Paraná, será necessário mais que duplicar a atual produção de etanol. E isso será preferencialmente feito nas melhores terras no sul do Estado. Se hoje isso não é possível, mude-se a lei. Essa é a lógica do verde cana dólar.
Não bastasse isso tudo, é só dar uma olhada no capital que está investindo pesadamente na região. Das 11 usinas em construção a grande maioria é de capital transnacional. A Dreyfus, francesa, estará inaugurando possivelmente no mês uma moderna usina próximo a Rio Brilhante. Além do processo de colheita mecanizado, terá produção de energia elétrica e outros aproveitamentos. Com a compra de outras cinco usinas da Coimbra, a Dreyfus está sendo um dos gigantes da cana/etanol. Porém seus mais de dez mil trabalhadores estarão com os dias contados, pois a rápida mecanização está anunciada. E daí. É a lógica do verde cana dólar.
E assim poderíamos continuar o passeio pelo por este imenso verde canavial, real e virtual. Amontoar restos de arvores, animais e gente para a fogueira permanente, neste dia de São João!

Egon Heck – Cimi MS

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domingo, 22 de junho de 2008

Lideranças Indígenas

A Campanha Anna Pata Anna Yan chega à Exposição Internacional da Água
A cidade espanhola de Saragossa acolhe este ano a Exposição Internacional com o tema Água e Desenvolvimento Sustentável. Um total de 105 países estão representados nesta Exposição, com atividades que giram em torno ao tema da Água.

As lideranças indígenas de Roraima, Jacir José de Souza e Pierlângela Nascimento da Cunha participaram ontem, dia 21, de encontros no Pavilhão El Faro, espaço dentro da Expo destinado a mostrar as desigualdades no acesso à água potável, a ação poluidora do ser humano e a necessidade de chegarmos a consensos para a preservação e democratização da água.

Em El Faro, Jacir e Pierlângela colocaram a problemática vivida atualmente na Terra Indígena Raposa Serra do Sol e as conseqüências para as fontes naturais de água. Destacaram a poluição dos rios causada pelo uso de agrotóxicos nos campos de arroz ou pelo uso de mercúrio nas áreas de garimpo. Mostraram fotos de desvios de rios nas áreas de ocupação dos empresários do arroz e o aterramento de lagos e leitos naturais. Mostraram também no mapa a cachoeira de Tamanduá, no coração da Raposa Serra do Sol, onde há planos do Governo Estadual de Roraima de construir uma Hidrelétrica. No encontro participava uma vereadora da prefeitura de Saragossa, quinta em importância socioeconômica na Espanha.

Dentre as exposições em El Faro destacava-se uma frase do Relatório oficial da Comissão Internacional de Barragens que dizia: “Podemos contar o número de barragens construídas no mundo durante o século XX, umas 45.000; o que não podemos contar é o número de pessoas que foram deslocadas de seus territórios por causa destas barragens”.

Mais tarde, Jacir e Pierlângela lançavam a Campanha Anna Pata, Anna Yan em um Auditório, já fora da exposição Internacional, para um grupo de apoio à Campanha, que vem acompanhando a organização dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol durante o processo de demarcação, homologação e registro daquela Terra Indígena. Jacir disse no encontro que “temos vitórias. Conseguimos a Homologação. E agora vamos também ter vitória”. Comentando as últimas notícias de Brasil afirmou: “Um Ministro do STF disse que vai decidir estritamente conforme a lei. Isso é bom, muito bom. Se todos os ministros pensam assim, então a Homologação vai continuar, porque a lei está do nosso lado”. Pierlângela agradeceu às pessoas que assistiram ao encontro. “Vossa acolhida, vossa força, é importante para nós”, concluiu.

Com estas atividades em Saragossa conclui a etapa da Campanha na Espanha. No domingo, dia 22, Jacir e Pierlângela continuam viagem para Inglaterra.

Luis Ventura Fernández, de Saragossa, Espanha.

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